O novo ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um movimento de aproximação com o Centrão, assume a pasta com um orçamento de R$ 3,5 bilhões, mas sua trajetória empresarial recente tem sido marcada por uma série de problemas de gestão e sanções governamentais. Feliciano está associado a instituições de ensino superior que acumularam dívidas, fecharam as portas e foram alvo de punições por parte do próprio governo federal. A situação levanta preocupações sobre a adequação de sua nomeação para um cargo de tamanha responsabilidade.
Histórico de Empresas com Problemas e Sanções do MEC
Entre as empresas que gerou, destacam-se duas instituições de ensino e uma construtora. Uma delas, a Faculdade de Ciências e Tecnologias de Natal (Faciten), onde o ministro atuou como sócio, foi descredenciada pelo Ministério da Educação (MEC) em novembro de 2025, após serem constatadas falhas na prestação de serviços educacionais. Outra entidade ligada a Feliciano, a União de Ensino Superior de Campina Grande (Unesc-PB), controladora da Faculdade de Campina Grande, teve sua participação suspensa do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) em julho do ano passado e encontra-se inoperante desde 2024. O conjunto dessas empresas, incluindo uma construtora que leva as iniciais de Feliciano, acumulou uma dívida de R$ 3 milhões com a União.
Apesar de credenciada desde 2003 e ainda constar como ativa nos sistemas do MEC, habilitada a oferecer oito cursos de graduação, a Unesc-PB não funciona efetivamente há pelo menos dois anos, conforme relatos de ex-professores. Sua suspensão do Fies em julho de 2025 foi motivada pela ausência de envio de informações cruciais para o Censo da Educação Superior, refletindo a desorganização administrativa que já vinha se manifestando em outras áreas da instituição.
Conexões Políticas e Ascensão ao Cargo
A ascensão de Gustavo Feliciano ao Ministério do Turismo está intrinsecamente ligada à sua forte rede de relações políticas na Paraíba, onde suas empresas têm sede. Filho do deputado Damião Feliciano (União-PB) e da ex-vice-governadora Lígia Feliciano, o ministro construiu uma sólida base de apoio. Ele ocupou o cargo de secretário estadual de Turismo e Desenvolvimento Econômico entre 2019 e 2021, durante a gestão de João Azevedo (PSB), e conta com o aval do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Sua indicação visou consolidar a aproximação do governo federal com setores do Centrão, substituindo Celso Sabino, que reassumiu seu mandato de deputado federal após desentendimentos com seu partido.
Crise Financeira e Impacto nos Funcionários
A gestão das faculdades, especialmente da Unesc-PB, foi marcada por graves problemas financeiros e trabalhistas. Ex-funcionários relatam atrasos constantes no pagamento de salários e no recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) desde, pelo menos, 2012. A situação gerou revolta, como evidenciado por posts de Feliciano em redes sociais sobre uma viagem ao Japão para assistir a um Mundial de Clubes em 2012, período em que a instituição já enfrentava dificuldades econômicas. A crise se aprofundou com a pandemia, quando a falta de infraestrutura para o ensino remoto levou a um êxodo de alunos e, consequentemente, à demissão em massa de grande parte do quadro de funcionários em 2022. No auge, a Unesc-PB chegou a ter cerca de 2.600 estudantes, número que despencou para aproximadamente 300 antes do encerramento das atividades.
Ações Trabalhistas e Posicionamento dos Envolvidos
A gravidade dos problemas trabalhistas se reflete nas 313 ações judiciais que mencionam supostas irregularidades cometidas pela Unesc-PB, registradas no Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região. Casos como a falta de pagamento de salários, rescisões e FGTS entre 2018 e 2022, e até mesmo a ausência de registro em carteira de uma ex-professora por mais de um ano (2016-2017), resultando em um acordo de indenização de R$ 24 mil em 2023, ilustram a extensão dos prejuízos aos trabalhadores. Em contraste com este cenário, o ministro Gustavo Feliciano não se manifestou quando procurado pela reportagem. Seu irmão e sócio-administrador da mantenedora da Faculdade de Campina Grande, Renato Feliciano, afirmou que o ministro não possui mais vínculo societário ou representação legal com as empresas e que todas as dívidas trabalhistas estão sendo negociadas individualmente.
Desafios para a Imagem e a Gestão
A nomeação de Gustavo Feliciano para o Ministério do Turismo ocorre em meio a um contexto de desafios para a imagem do novo governo e do próprio ministro. Seu passado empresarial conturbado, marcado por falhas na gestão, endividamento e conflitos trabalhistas, contrasta fortemente com as responsabilidades de gerir uma pasta com um orçamento expressivo e de grande impacto na economia nacional. As questões levantadas sobre sua capacidade administrativa e a conduta ética de suas antigas empresas permanecem como um ponto de interrogação sobre sua atuação à frente do Turismo, exigindo transparência e respostas claras à sociedade.
Fonte: https://www.infomoney.com.br